Igreja Paroquial - Nossa Senhora da Anunciação



A Dedicação da Igreja Paroquial teve lugar em 18-10-2009, em cerimónia presidida pelo Sr. Cardeal Patriarca D. José Policarpo. Este acto foi o corolário de uma série de iniciativas que deram lugar à construção do Complexo Paroquial da Póvoa de Santo Adrião, e que teve início material com a Bênção da Primeira Pedra no dia 14-11-1999. A primeira fase da construção foi a do Centro Paroquial, inaugurado em 6-10-2002, a que se seguiu a Igreja Paroquial, com o orago de Nª Senhora da Anunciação, por vontade expressa da maioria dos paroquianos.

Quem melhor que o Arquitecto, Miguel Sousa, para definir a ideia que preside à obra? O nosso Arquitecto traça, nas linhas que se seguem, a sua visão da Igreja de Nª Senhora da Anunciação, que idealizou e viu erguer. Com estas linhas teremos uma ajuda preciosa para melhor entendermos os espaços e os símbolos que compõem o nosso novo Templo.

Numa obra edificada, e através da arquitectura, pela escolha dos materiais, da luz, das proporções, dos elementos construtivos, pretende-se que a construção exprima e enalteça, em cada espaço e a cada momento, a natureza e o carácter das actividades a que se destina. No caso de um espaço religioso isto é tanto mais importante e difícil, quanto a natureza das funções são do domínio do transcendente, do espiritual.

Muito para além de permitir o desenrolar das actividades e rituais com funcionalidade e eficácia, é objectivo que os espaços sejam contributo decisivo para, num caso destes, aproximar o Homem de Deus.

A Igreja é o espaço onde se reúne a Assembleia dos fiéis, esta sim a verdadeira Igreja, ou Ecclesia. A Assembleia é assim o verdadeiro centro da Igreja-edifício, a sua razão de ser. O povo de Deus reúne-se na Igreja para Celebrar a Palavra e a Eucaristia. E na medida em que esta reunião assim se efectua, a Ecclesia torna-se sagrada, pois, como Cristo afirmou, "...Sempre que um ou mais estiverem reunidos em Meu nome, estarei no meio deles.” O Espaço da Igreja privilegia assim a reunião dos fiéis e a sua relação uns com os outros na procura de Deus. Não é um espaço unidireccional e estático, onde todos se orientam isoladamente para um único ponto sagrado, mas antes um espaço que estimula e representa a comunhão fraterna dos irmãos reunidos em torno do Altar e do Ambão e permite a multiplicidade de momentos e celebrações que se devem ali desenrolar.

Foi assim procurado, através dos materiais naturais, do controlo da luz, das proporções dos espaços, (nem demasiado amplos – impedindo a aproximação dos fieis entre si e em relação ao celebrante – nem demasiado reduzidos – retirando a dignidade do espaço) e da disposição dos lugares, um sentimento de fraterno envolvimento e de sereno recolhimento. Uma multiplicidade de espaços que se cruzam e interpenetram, quer horizontal, quer verticalmente, permitem criar diversas zonas, adequadas também aos diversos momentos de oração e de celebração, sem que tal quebre a unidade da Igreja.

A escala e volume dos espaços marca e diferencia cada momento, contrastando-se as zonas de menores proporções, reservadas aos lugares mais recolhidos ou de circulação, com os espaços da zona de celebração, aonde a altura interior aumenta e recebe a luz zenital, reforçando a dignidade e transcendência do espaço. De todos os espaços da Igreja, a zona de celebração é a que se reveste de uma maior carga simbólica, uma vez que é aí que se desenrolam os diversos tempos da celebração litúrgica, presidida pelo celebrante e participada pelos demais ministros e fiéis.

A Zona de Celebração

A Zona de celebração tem, nesta obra, um conjunto de elementos que integram e conferem sentido particular aos diversos momentos da celebração litúrgica. Não está concebida como um lugar segregado e inacessível, como outrora o “Santo dos Santos”. Pelo contrário, ocupa toda a parede de fundo da igreja, como que abraçando a Assembleia, permitindo que nela se articulem os diversos momentos de oração e celebração. Tem pois uma presença particular a grande parede que constitui o pano de fundo da zona de celebração. Tal como no resto do espaço da Igreja, é constituída por tijolo maciço vermelho, mas tem aqui um tratamento particularmente rico e trabalhado, que, para além de caracterizar os vários locais da celebração litúrgica, suporta uma carga simbólica particular. Uma faixa inferior a todo o comprimento, com cerca de 3 metros de altura é marcada com uma textura mais recortada e agitada. Representa a Humanidade e a acção do Homem na Terra. Por oposição, á medida que a parede sobe, o seu desenho vai-se simplificando e recuando em três planos sucessivos. Na faixa superior, representando agora o Divino e a espiritualidade, sete recortes verticais indicam os sete rios bíblicos, descendo sobre a Humanidade. Ainda nesta parede de fundo inscrevem-se, em recortes no tijolo, marcações especiais que assinalam e recebem três elementos especialmente importantes; a cruz de Cristo, a imagem de Nª Srª da Anunciação, padroeira desta Igreja, e ainda o lugar do Presidente da Assembleia.

A Luz

A Luz integra também e de forma decisiva este simbolismo. Representa o Divino – “… Eu sou a Luz do Mundo…” Por diversas formas é utilizada a iluminação natural para reforçar os elementos mais marcantes do espaço, simbolizando a descida ou a presença de Deus no Mundo. No topo superior da parede de fundo, uma faixa de luz, em clarabóia oculta, introduz a luz de forma indirecta, banhando a zona de celebração, e destacando esta área do restante espaço da Igreja. Também, de forma mais dirigida, foi conduzida uma faixa de luz natural ao eixo do baptistério, simbolizando aqui, uma vez mais, a descida de Deus sobre o Homem, no acto do Baptismo. Por último, uma entrada de luz directa, pontua o sacrário, lembrando que aqui se guarda o Corpo e o Sangue de Cristo consubstanciado no Pão e Vinho eucarísticos. Elementos de luz artificial, de particular significado litúrgico, complementam também alguns espaços particulares, como o Círio Pascal, ou a lamparina do Sacrário. Marcam também a zona de celebração, cinco espaços, correspondentes a outros tantos momentos fundamentais na celebração litúrgica: o Altar, o Ambão, o Baptistério, o Círio Pascal e o Sacrário. Em cada um destes Espaços, é aqui associada, de uma forma pontual, a presença do mármore branco, sendo esta cor simbolizadora da perfeição e da pureza e portanto, também, do sagrado.

O Altar

O Altar é o elemento central e congregador da celebração e marca o segundo tempo da celebração litúrgica – a celebração da Eucaristia. Originalmente mesa de madeira amovível em torno da qual, nas primitivas Igrejas/Casa, se reuniam os fiéis, o altar foi mais tarde concebido, ora como Pedra sacrificial, ora como relicário/urna ou como bancada de embasamento do Tabernáculo barroco. No entanto, o Altar assume, novamente e sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, a imagem de mesa em torno da qual a Assembleia Cristã se congrega, presidida pelo Celebrante, à Imagem de Cristo em torno dos seus Apóstolos na Última Ceia. É a mesa da Eucaristia. Nele se distingue o tampo dos pés, sendo o primeiro, a “mensa”. Assim, este Altar ocupa o centro do espaço de celebração. Um tampo nobre em mármore branco, representando, como referido, a pureza e o sagrado, é apoiado em 12 pranchas e 12 travessas de madeira, simbolizando os 12 Apóstolos. A presença da Pedra, aqui, remete também para a tradição Cristã, em que o Altar se assumiu por vezes como bloco maciço, “…a pedra angular é Cristo…” diz S. Paulo.

O Ambão

Em paralelo com o Altar, e com ele apresentando afinidades de concepção, o Ambão é o centro da primeira parte da celebração – a celebração da Palavra. A Palavra de Deus é aqui representada pelos quatro pés do ambão, em sinal dos quatro evangelistas. A bancada, sobre a qual assenta o livro sagrado, tem um embutido em mármore branco, assinalando também o carácter excepcional deste elemento.



O Baptistério

O Baptistério encontra-se aqui integrado no espaço da zona de celebração, reforçando a ideia do sacramento baptismal enquanto sacramento de incorporação na Igreja, e permitindo a sua celebração comunitária. Tem um espaço autónomo e lateral, significando aqui que existe um caminho a percorrer na entrada para a comunidade cristã. Este espaço é centrado na Pia Baptismal que, uma vez mais, recebe uma tina em mármore branco, símbolo da pureza e do sagrado. No seu eixo zenital, uma clarabóia encaminha a luz natural, conduzida por um prisma vertical. É Luz de Deus que desce sobre o Homem no acto do Baptismo.



O Círio Pascal

Está contíguo ao Baptistério a ele se associando enquanto portador da luz de Deus. A sua chama, acesa na noite de Páscoa, alimenta o ritual do baptismo. Este Círio tem assim um espaço próprio assente e definido por uma laje quadrada de mármore branco no pavimento, assinalando a sua importância.





O Sacrário

É o cofre, receptáculo do Pão e do Vinho consagrados. Não tendo uma função litúrgica própria, é no entanto, por aquele facto, um objecto sagrado para o qual se orientam os fiéis em adoração. Assume aqui a forma de um cubo de mármore branco semi encastrado numa bancada de madeira. O cubo, enquanto forma geométrica primária, representa a perfeição; o mármore branco reforça este conceito, tal como em toda a zona de celebração. Na porta do sacrário, os símbolos do pão e do vinho anunciam a presença do Corpo e Sangue de Cristo.

A Igreja actual

Se acima se revelaram alguns aspectos simbólicos do edifico construído, não deverá contudo ser assumido que a Igreja é feita de representações e metáforas, e que estas têm um valor sagrado próprio. Pelo contrário, pretende-se que sejam apenas marcas no espaço que o identifiquem de forma perene aos seus desígnios, lembrando aos homens o sentido da sua construção. E, como também já referido, não é o espaço da Igreja em si que será sagrado, mas sim a comunidade reunida, em cada momento, e em cada espaço, em nome de Deus. A Igreja “de Pedra” será assim “apenas“ a possibilidade dessa reunião.

A enumeração acima feita de alguns dos diversos espaços e objectos associados à zona de celebração, revela que o espaço da Igreja é concebido de uma forma plural e dinâmica, na qual uma multiplicidade de ritos e celebrações se desenvolvem.

Importa no entanto assinalar e resumir que, na sua essência e à luz da actual reflexão da doutrina da litúrgica, o espaço Igreja deve ser centrado numa Assembleia envolvente, tendo como pólos congregadores as Mesas da Palavra – o Ambão, e a Mesa da Eucaristia - o Altar. Foi este o sentido que se procurou aqui, também.